O momento da aposentadoria para qualquer atleta é um desafio. Imagine a situação: depois de muitos anos fazendo aquilo de que você mais gosta, o corpo decide que não dá mais. Foi o que aconteceu com Ronaldo no mês passado. A frase mais emblemática da coletiva em que anunciou sua saída definitiva dos campos foi esta: “Perdi para o meu corpo”. Muitas pessoas o criticaram dizendo que essa decisão deveria ter sido tomada no auge da carreira, há alguns anos. Isso é algo muito difícil. Na prática, os campeões atuam sempre um pouco além de seu pico de performance, tentando fazer, ainda em atividade, uma transição para outra carreira fora do esporte. Falo por experiência própria. No final da minha carreira de nadador, eu já fazia tantas coisas fora das piscinas que elas acabavam atrapalhando meus treinos e, por consequência, os resultados dentro d’água.
Mais difícil do que o momento de dar adeus ao esporte é controlar o impulso de voltar atrás na decisão, por causa da saudade da adrenalina das competições. Depois que parei, a vontade de cair na piscina voltava cada vez que eu via alguém mais novo nadando pra caramba nas competições. Nessa época, um dos novatos que me chamavam a atenção era um tal de César Cielo. Vocês conhecem? Enquanto rolavam os preparativos do Pan-Americano do Rio de Janeiro, em 2007, imaginei como seria bacana competir de novo no meu país, talvez encarando um revezamento… Mas não levei a sério essa disposição, pois minha vida fora do esporte já estava bem estruturada, o que tornava distante a possibilidade de um retorno aos treinos.
Nem todos os grandes ex-campeões resistem a esse impulso. Em janeiro, um dos maiores ícones da natação, o australiano Ian Thorpe, anunciou a decisão de voltar às competições. O último torneio oficial que ele disputou foi em 2004. Dois anos depois, anunciou a aposentadoria. Agora, diz que vai treinar firme para disputar os Jogos de Londres, em 2012. Thorpe foi um gigante, mas a natação mudou muito desde suas principais conquistas. As provas de 100 e 200 metros estão sendo dominadas por atletas mais jovens, incluindo um certo Michael Phelps. Todo mundo vai estar de olho em seu desempenho, que poderá ocupar uma nova página no capítulo “Tentativas frustradas de retorno de atletas de altíssima qualidade”. O sueco Bjon Borg, no tênis, e o alemão Michael Schumacher, no automobilismo, entre outros, falharam nessa tentativa (Schumi tem ainda dois anos para mostrar por que voltou). Ninguém, porém, pode culpá-los. Na vida esportiva, não há nada mais duro que o exercício do adeus.
(*) Gustavo Borges, 38 anos, um dos maiores nadadores do Brasil, se aposentou em 2004.