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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

VOCÊ É UM SUCESSO? PARA QUEM?


O cenário é mais ou menos esse: amigo formado em comércio exterior que resolveu largar tudo para trabalhar num hostel em Morro de São Paulo, amigo com cargo fantástico em empresa multinacional que resolveu pedir as contas porque descobriu que só quer fazer hamburger, amiga advogada que jogou escritório, carrão e namoro longo pro alto para voltar a ser estudante, solteira e andar de metrô fora do Brasil, amiga executiva de um grande grupo de empresas que ficou radiante por ser mandada embora dizendo “finalmente vou aprender a surfar”.

Você pode me dizer “ah, mas quero ver quanto tempo eles vão aguentar sem ganhar bem, sem pedir dinheiro para os pais.”. Nada disso. A onda é outra. Venderam o carro, dividem apartamento com mais 3 amigos, abriram mão dos luxos, não ligam de viver com dinheiro contadinho. O que eles não podiam mais aguentar era a infelicidade.
Engraçado pensar que o modelo de sucesso da geração dos nossos avós era uma família bem estruturada. Um bom casamento, filhos bem criados, comida na mesa, lençóis limpinhos. Ainda não havia tanta guerra de ego no trabalho, tantas metas inatingíveis de dinheiro. Pessoa bem sucedida era aquela que tinha uma família que deu certo.

E assim nossos avós criaram os nossos pais: esperando que eles cumprissem essa grande meta de sucesso, que era formar uma família sólida. E claro, deu tudo errado. Nossos pais são a geração do divórcio, das famílias reconstruídas (que são lindas, como a minha, mas que não são nada do que nossos avós esperavam). O modelo de sucesso dos nossos avós não coube na vida dos nossos pais. E todo mundo ficou frustrado.



Então nossos pais encontraram outro modelo de sucesso: a carreira. Trabalharam duro, estudaram, abriram negócios, prestaram concurso, suaram a camisa. Nos deram o melhor que puderam. Consideram-se mais ou menos bem sucedidos por isso: há uma carreira sólida? Há imóveis quitados? Há aplicações no banco? Há reconhecimento no meio de trabalho? Pessoa bem sucedida é aquela que deu certo na carreira.

E assim nossos pais nos criaram: nos dando todos os instrumentos para a nossa formação, para garantir que alcancemos o sucesso profissional. Nos ensinaram a estudar, investir, planejar. Deram todas as ferramentas de estudo e nós obedecemos. Estudamos, passamos nos processos seletivos, ocupamos cargos. E agora? O que está acontecendo?



Uma crise nervosa. Executivos que acham que seriam mais felizes se fossem tenistas. Tenistas que acham que seriam mais felizes se fossem bartenders. Bartenders que acham que seriam mais felizes se fossem professores de futevolei.

Percebemos que o sucesso profissional não nos garante a sensação de missão cumprida. Nem sabemos se queremos sentir que a missão está cumprida. Nem sabemos qual é a missão. Nem sabemos se temos uma missão. Quem somos nós?



Nós valorizamos o amor e a família. Mas já estamos tranquilos quanto a isso. Se casar tudo bem, se separar tudo bem, se decidir não ter filhos tudo bem. O que importa é ser feliz. Nossos pais já quebraram essa para a gente, já romperam com essa imposição. Será que agora nós temos que romper com a imposição da carreira?

Não está na hora de aceitarmos que, se alguém quiser ser CEO de multinacional tudo bem, se quiser trabalhar num café tudo bem, se quiser ser professor de matemática tudo bem, se quiser ser um eterno estudante tudo bem, se quiser fazer brigadeiro para festas tudo bem?
Afinal, qual o modelo de sucesso da nossa geração?



Será que vamos continuar nos iludindo achando que nossa geração também consegue medir sucesso por conta bancária? Ou o sucesso, para nós, está naquela pessoa de rosto corado e de escolhas felizes? Será que sucesso é ter dinheiro sobrando e tempo faltando ou dinheiro curto e cerveja gelada? Apartamento fantástico e colesterol alto ou casinha alugada e horta na janela? Sucesso é filho voltando de transporte escolar da melhor escola da cidade ou é filho que você busca na escolinha do bairro e pára para tomar picolé de uva com ele na padaria?



Parece-me que precisamos aceitar que nosso modelo de sucesso é outro. Talvez uma geração carpe diem. Uma geração de hippies urbanos. Caso contrário não teríamos tanta inveja oculta dos amigos loucos que “jogaram diploma e carreira no lixo”. Talvez- mera hipótese- os loucos sejamos nós, que jogamos tanto tempo, tanta saúde e tanta vida, todo santo dia, na lata de lixo.

Por Ruth Manus


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Dom Quixote na contramão



As aventuras de Dom Quixote, narradas por Miguel de Cervantes, poderiam representar a saga das organizações que atuam no Terceiro Setor. Basta comparar as lutas intermináveis do herói contra os moinhos de vento com as batalhas burocráticas também intermináveis das instituições filantrópicas com o poder do Estado constituído para poderem trabalhar em prol da sociedade. O engraçado de tal comparação é que, na medida em que se analisa a estrutura de sociedades consolidadas, do ponto de vista democrático, todo esse processo é inverso.

Os responsáveis pela condução do processo social estimulam a expansão de entidades vinculadas ao Terceiro Setor, pois reconhecem o seu valor e os benefícios do fortalecimento da presença da sociedade civil nas parcerias entre o governo e a iniciativa privada. No entanto, em terras tupiniquins, parceria entre público e privado é apenas um discurso inflamado em palanques prevendo a próxima eleição.

Pode parecer que esse tipo de argumento seja uma lamentação sem fim! Claro que não é isso que se pretende. Mas não podemos perder o conjugado da história e devemos fazer jus à memória de todos aqueles que trabalharam na busca de um ideal de sociedade. Instituições que foram construídas, simplesmente, a partir do sonho de se viver em um lugar melhor; onde conceitos como dignidade da pessoa humana, liberdade, justiça, igualdade, garantias jurídicas, valor social do trabalho e da livre iniciativa, entre outros, não foram apenas princípios fundamentais da Constituição.

Instituições que desempenharam por centenas de anos o papel que é do Estado, de suprir serviços à população nas áreas de educação, saúde e assistência social, agora são estigmatizadas. Onde a força do poder público era inoperante, lá estavam as instituições filantrópicas para contribuir com o amparo aos mais necessitados. Mas agora as coisas mudaram e todas são chamadas de "pilantrópicas". O que antes era um título, agora tornou-se sinônimo de corrupção. Será porque tais entidades não se rendem aos encantos de um governo estatizante? Pois a voracidade de arrecadação não se justifica.

Basta fazer os cálculos adequados, retirando os sofismas apresentados, e logo se percebe que o custo-benefício da preservação de tais organizações é de ganho imenso para os cofres do governo.

As instituições sérias não procuram nenhum tipo de favorecimento junto ao governo. Querem apenas manter as prerrogativas previstas pela Constituição para desenvolverem seus trabalhos beneficiando a sociedade como um todo. Tais organizações passam por uma série de fiscalizações do próprio governo, de forma austera e intensa. Chega-se a um ponto em que se passa a acreditar que é mais fácil para o governo desconfiar e aterrorizar as instituições do que investigar, por exemplo: as despesas dos parlamentares com a verba indenizatória da Câmara; a instrumentalização partidária dos ministérios; a indignação pragmática do senador Jarbas Vasconcelos; o ruído presente dos desvios das verbas do Programa de Aceleração do Crescimento; as despesas gigantescas do Palácio da Alvorada etc.

De fato, as entidades filantrópicas acabam exercendo na sociedade brasileira o mesmo papel do herói de Cervantes, na contramão de um modelo político limitado, marcado por bases ideológicas de um passado frustrado e que coloca em risco todo o futuro de uma nação que preza pela democracia e por garantias constitucionais mínimas.
Dilnei Lorenzi: Doutor em Filosofia e secretário executivo da Associação Nacional de Educação (Anec).

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